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Os novos partidos candidatos às próximas eleições legislativas podem atrair mais eleitores às urnas, defendem politólogos contactos pela Lusa que, no entanto, alertam que a abstenção nunca será tão baixa como nas primeiras eleições livres, em 1975.

“Sem dúvida que esse eleitorado [abstencionista] existe e que há uma componente desse eleitorado que não está satisfeita com a oferta partidária, e que poderá interessar-se por um ou outro novo partido que surja”, afirmou à Lusa a politóloga Marina Costa Lobo.

Também o politólogo Adelino Maltês afirmou que “não faz mal nenhum haver pequenos partidos e esta profusão, até porque alguns podem resultar”, acrescentando que um grande número de partidos representa “o triunfo da democracia”.

No entanto, o investigador António Costa Pinto tem uma opinião diferente, vincando que não se pode dizer que “a abstenção no caso português seja também um problema de falta de oferta [de partidos]”.

Atualmente, estão registados no Tribunal Constitucional 22 partidos, dos quais três nunca concorreram a legislativas (LIVRE, Juntos Pelo Povo e Partido Democrático Republicano). Em análise pelo TC está a legalização de duas novas forças políticas: Nós, Cidadãos e Partido Unido dos Reformados e Pensionistas PURP).

Adelino Maltês sublinhou também que “é muito difícil que volte a acontecer [uma abstenção tão baixa] porque foi muito longa a suspensão da política na véspera das eleições de 1975”.

Esta “revolução do sufrágio universal”, como lhe chamou o politólogo, ocorreu no dia da eleição da Assembleia Constituinte, a 25 de Abril de 1975, um ano após a Revolução dos Cravos.

Naquelas que foram as primeiras eleições livres para homens e mulheres maiores de 18 anos, registou-se uma participação de 91,7% dos eleitores registados.

“Eu fui eleitor e lembro-me bem desse dia. Foi o maior dia da democracia portuguesa de todos os tempos”, referiu Adelino Maltês, acrescentando que “houve uma adesão de massas como ninguém imaginava”.

Com a consolidação da democracia, a abstenção tem vindo a crescer, atingindo os 41,1% nas últimas legislativas em 2011, e os 66,09% nas europeias de maio de 2014.

O investigador do Instituto de Ciências Socias da Universidade de Lisboa António Costa Pinto defende três razões que justificam os valores atuais da abstenção: o facto de a democracia “não estar em perigo”, o descontentamento com a classe política e os níveis de educação da sociedade portuguesa.

“Nas democracias consolidadas há um grande descontentamento para com a classe política tradicional que conduz, no caso português, mais à abstenção do que ao voto em partidos antissistema”, sublinhou, acrescentando que “sociedades sem voto obrigatório, como é o caso português, e com níveis de educação relativamente baixos tendem a ter uma participação menor”.

Também o politólogo Adelino Maltês defende que em 1975 “o voto era a arma do povo” e que o “problema” das posteriores eleições foi o eleitor saber que o voto era “um tiro de pólvora seca”.

Adelino Maltês classifica ainda a abstenção como “um voto de tolerância relativamente às forças políticas que controlam o jogo”.

Para a politóloga Marina Costa Lobo a abstenção resulta de um conjunto de fatores: “Situação de divórcio entre eleitores e eleitos, que faz com que o vínculo entre o eleitor e o voto esteja muito enfraquecido”, a fraca mobilização dos jovens às urnas, a insatisfação com a política ligada à “performance económica e social do país” e a perceção de que “o voto conta pouco e de que nas eleições legislativas está muito pouco em jogo” porque as decisões são tomadas a nível europeu.

Quanto à classificação dos abstencionistas, António Costa Pinto defende dois tipos: o “abstencionista estrutural, aquele que há mais de três eleições não participa”, e “o abstencionista conjuntural, ou seja, aquele que está descontente com o seu partido mas não vota no outro”.

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Lusa/fim